História do Boi na brincadeira popular
PorRafael Sol
O Problema do “Auto do Boi”
Historicamente, a literatura folclórica tendeu a compreender os folguedos do boi como a encenação de um auto popular (“auto do boi”. O termo auto designa uma forma tradicional de teatro popular alusiva ao teatro alegórico medieval trazido pelos jesuítas. Supunha-se que esse auto forneceria um roteiro para a brincadeira, encenando a trama mítica da morte e ressurreição de um boi precioso.
No entanto, a constatação etnográfica é que esse auto, em sua suposta integridade dramática, parece nunca ter sido encontrado tal e qual na realidade. Desde 1906, pesquisadores como Artur Azevedo já notavam que o bumba-meu-boi havia se tornado um “simples folguedo, sem significação alguma,” com um enredo perdido. Essa percepção da ausência do auto levou a especulações sobre deteriorações ou mutações indesejáveis nos folguedos contemporâneos.
A Proposta da Autora: O Auto como Narrativa de Origem
O texto busca deslocar conceitualmente o “problema do auto”, compreendendo-o não como uma encenação concreta, mas sim como um certo tipo de narrativa. O problema central se redefine como a relação entre essa narrativa (com suas variantes) e o contexto ritual das brincadeiras do boi.
A autora percebeu que o “auto” era, acima de tudo, uma crença no auto, compartilhada por pesquisadores, agentes oficiais e, paradoxalmente, muitas vezes pelos próprios brincantes.
Os relatos narrativos que preenchem a ideia de um auto com ações dramáticas e personagens característicos surgiram apenas em meados do século XX, impulsionados pelo Movimento Folclórico Brasileiro (1949–1964). A autora sugere que a forma primordial de vida do chamado auto é narrativa, tratando-se de uma narrativa sobre a suposta origem da brincadeira, surgida nos circuitos da própria brincadeira.
Analisando relatos de brincantes, como o de Seu Casemiro (Narrativa 3, de 1950), fica claro que, embora o avô narrasse a história da origem, a brincadeira propriamente dita nunca obedeceu inteiramente ao “sistema” do auto. Isso ocorre porque as brincadeiras pertencem à ordem das performances rituais, que são abertas e fragmentárias, e não a um roteiro direto para a ação.
Essas narrativas de origem se destacaram por serem narrativas nativas de origem mítica e pelo interesse dos estudiosos de folclore, que as fixaram em registros escritos.
Os Registros de Temporalidade
A narrativa do auto, em sua função de intriga (mimese II, na visão de Paul Ricoeur), media a experiência temporal. Essa intriga elabora o mito central da morte e ressurreição do boi em dois registros temporais imbricados: o mítico e o ritual.
1. O Registro Mítico
A análise estrutural das variantes da narrativa (como a de Bordallo da Silva) revela que ela trata de um problema fundamental: como uma ordem social hierárquica e desigual, representada pelo universo imaginado da fazenda, pode perdurar e sobreviver a conflitos. A trama expõe a tensão entre a reprodução biológica (a fecundidade de Mãe Catirina, esposa do vaqueiro Pai Francisco) e a reprodução social (a riqueza e o poder do fazendeiro, simbolizados pelo boi).
Pai Francisco e Mãe Catirina são introduzidos como a dimensão cosmológica e transcendente do mito, garantindo a vinda de um filho ao preço do sacrifício do boi. Essa morte rompe a base moral de lealdade e confiança da fazenda. A busca pela ressurreição do boi exige a convocação de curandeiros, padres e, finalmente, o pajé.
2. O Registro do Rito
O drama, quando prestes a se encerrar, abre-se para o contexto festivo e ritual da brincadeira. O boi que morre e ressuscita é diretamente conectado ao boi-artefato bailante da performance. A ressurreição abole o tempo biológico e insere a ação no “aqui e agora” hipotético da festa/rito, e também na macro-temporalidade cósmica cristã/católica (o calendário cíclico anual das festas juninas, como São João). O retorno do boi da morte para a vida corresponde ao nascimento da nova forma simbólica: as “brincadeiras de boi”, que revertem e repetem o tempo, afirmando a vida.
A Crítica ao Arcaísmo e a Influência do Modernismo
A crença na existência de um auto originário é vista pela autora como um sintoma da ilusão do arcaísmo nos estudos da cultura popular. O arcaísmo é a visão de que fatos contemporâneos chegaram ao presente exatamente como eram no passado.
Essa visão foi fortemente influenciada pelos pressupostos ideológicos do Movimento Modernista e do Movimento Folclórico Brasileiro nos anos 1930 e 1950, respectivamente. Intelectuais como Mário de Andrade buscavam no folclore as “raízes” da cultura nacional e a continuidade com o passado.
A ideia do arcaísmo seduz e exotiza os fatos folclóricos, mas pressupõe uma distância mental e alteridade entre o universo popular e o não popular, prejudicando a compreensão antropológica.
Para a autora, o boi que morre e ressuscita não é um ícone de uma humanidade primitiva, mas sim o operador simbólico crítico da passagem entre uma origem simbolizada no ato da narração e o presente do ambiente festivo. A narração da origem define a moldura ritual da brincadeira, operando como um mito totêmico para distinguir o presente (o devir) de um passado que se deseja imutável.
