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Mestre Zé Lopes – Mamulengo

José Lopes da Silva Filho,  Zezinho do Mamulengo ou Mestre Zé Lopes. O homem que, ainda menino, aos 10 anos de idade fez seu primeiro mamulengo, e desde então não parou mais. Zé, nasceu no dia 21 de outubro de 1950, no sítio Cortesia, município de Glória do Goitá, cidade da Zona da Mata Norte do Estado de Pernambuco, Nordeste do Brasil. Vindo de uma família muito humilde, adentrou o mundo dos bonecos apaixonado, com brilho nos olhos e inteiramente comprometido.

Em casa, de início recebeu a reprovação de sua mãe – Dona Severa. Não que a jovem viúva fosse de todo avessa aos gracejos dos bonecos, e de fato não era! Até que ela achava graça naqueles pedacinhos de gente, que lhe arrancavam sorrisos toda vez que ia à cidade vender bolo. A reprovação de Dona Severa era tão somente por medo, medo de ver o filho, ainda menino, “desencaminhar-se” na vida em razão de um ofício que não oferecia estabilidade financeira, e na época visto aos olhos do conservadorismo como algo marginal.

Se em casa Zé Lopes precisou lutar para afirmar-se como artista mamulengueiro, na rua não foi diferente. Nem todos os mamulengueiros gostavam de repassar os segredos de sua arte, mas Zé, curioso, insistente e atrevido como só ele, foi pouco a pouco conquistando um espaço no coração dos mamulengueiros mais experientes e do público. E rapidamente tratou de montar seu próprio Brinquedo, convidou seus tios seu Chico e Zé de Teca e os amigos Zé Cardeira e Zé de Vina para lhe auxiliar dentro e fora da barraca e assim surgiu em 1962 o Mamulengo São José, grupo que rapidamente começou a receber o carinho, respeito e admiração da comunidade de Glória e dos sítios ao redor.

Ainda assim, mesmo a contragosto de sua mãe e tendo que lutar dentro e fora da comunidade mamulengueira por um espaço de reconhecimento, Zezinho seguiu empunhando seus bonecos, e a cada vez que brincava o menino ia deixando de ser Zezinho, para ser Zé, aquele célebre mamulengueiro reconhecido por sua gente, pelos brincantes das cidades vizinhas. No despontar de suas cãs já estava percorrendo o Brasil, de Norte a Sul, de repente abriu suas asas e voou para terras além mar. Já não era mais menino, tinha tornando-se mestre, o mestre Zé Lopes, Patrimônio Vivo de Pernambuco, e quando se encantou rumo a São Saruê, os de cá lhe coroaram Patrono dos Mamulengos de Pernambuco.

Em 1971, o Mamulengo São José interrompeu suas atividades. Em meio a dificuldades financeiras, Zé toma um caminho semelhante ao de muitos homens e mulheres da época, que viam na cidade de São Paulo – SP a esperança de uma vida com um pouco mais de dignidade e comida na mesa. Durante os 12 anos em que residiu em São Paulo, Zé exerceu outras profissões, mas não deixou de fazer os bonecos e contar as histórias do Mamulengo. Os bonecos e as histórias do nosso povo era o que o mantinha conectado com o seu chão, com a sua tradição, e foi também o que o fez voltar para sua gente.

Em 1982, Zé voltou à Glória do Goitá-PE, encontrou o Mamulengo “praticamente esquecido”, muitos mestres tinham dado um tempo da brincadeira por falta de apoio institucional. Logo Zé começa um minucioso e importante trabalho de reavivamento da brincadeira na região.
Nesse contexto, nasce o Mamulengo Teatro Riso, grupo que o tornaria conhecido nacional e internacionalmente. Assim, em 21 de outubro de 1982, data de seu aniversário, Zé Lopes fundou o Mamulengo Teatro Riso. A apresentação na festa do Levantamento da Bandeira de Nossa Senhora da Conceição, em 02 dezembro daquele mesmo ano, foi um marco não só para o início do grupo, mas sobretudo para a retomada do Mamulengo em Glória do Goitá.

Naquele momento, a formação do Mamulengo Teatro Riso foi composta por Zé Lopes, Zé Cardeira, e novos amigos tocadores. Numa época em que não dispunham de automóvel, para levar alegria às comunidades rurais e cidades vizinhas iam todos com seus cavalos e jumentos, cortando caminho pelas paisagens verde louro da Zona da Mata, quer seja sob o sol escaldante do poente ou sob a claridão das noites de lua cheia. Como dizem os anciãos dessas bandas, “iam pista afora” pelo “oco do mundo” pulando de um sítio para outro, para alegrar a vida do povo da roça, uma gente trabalhadora, cansada, sedenta de um pouco de riso e calor de terreiro. Todos brincavam antes por amor do que estritamente por dinheiro, a brincadeira era um complemento à renda familiar, pois na época não era possível viver exclusivamente dessa arte.

Em 1988, chega ao grupo Neide Lopes, companheira de Zé. Começava ali uma parceria de vida que duraria até meados de 2020, quando Zé Lopes deixa a vida rumo à espiritualidade. Em mais de trinta anos Zé e Neide tiveram grandes conquistas no Mamulengo e na vida de casados. A partir desse amor, família e trabalho não se separaram mais. Dos milhares de bonecos que os dois botaram no mundo, três são especiais: as Quitérias: Cida (a primogênita do casal, nascida em agosto de 1989) e Larissa (a irmã do meio, nascida em outubro 1996) e o Simãozinho Theo (o caçula, nascido em maio de 2009). Três filhos e três brincantes, ainda parafraseando os mais velhos: “crianças nascidas e criadas dentro do Mamulengo”, crianças cujo os primeiros brinquedos foram bonecos de mulungu e chita.

A entrada de Neide Lopes (Marinês Tereza do Nascimento – 1975) para o Teatro Riso, proporcionou ao grupo um salto em termos de qualidade técnica dos bonecos e da quantidade de produção desses bonecos e brincadeiras, pois as habilidades de Neide com escultura, costura, pintura, acabamentos, além do auxílio prestado ao mestre Zé Lopes dentro da barraca, e junto com ele o ensinar cotidiano dos seus saberes e fazeres para os filhos elevou o grupo a um lugar de excelência artística e notoriedade na cena bonequeira nacional.

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